Alfaiataria de Gestos
“Meus gestos se repetem”
Eu ouvi isso da boca dele num sussurro, num cuspir de dor
espremido naquele corpo atrofiante que simplesmente se movimentava em 100% do
seu repertório de atrofiação, todos os pequenos impulsos – espremidos – os quais
eram forma e deforma dele, aconteciam simultaneamente engavetando-se uns aos
outros com choques, com ralados, com reflexos, com reações, com inércias e
impactos internos e que me pareciam vir do eterno cultivar de mesquinharia
gestual de impulsos implodidos seguindo na contra mão. Essa é a imagem de
pequenos espirros que são presos pelo nariz e a boca, assim todo o impulso (no
sentido de expulsar) é rebatido provocando implosão dentro do corpo, uma
energia que agride internamente todos os órgãos. E além da violência, mantém o
que dever ser expelido, vivo e criado, alimentado e forte.
Ouvi também sobre a casca, sobre o frágil, vi um maciço/casca.
Não só um corpo vazio, cascudo e leve, penoso (como pena e como misericórdia),
mas também um corpo que segue sem dúvidas, que realmente não questiona caminho,
porém age intermitentemente, cotidianamente, retalhando possíveis sentidos,
possíveis visões, possíveis motivos e consequências, e relações, e reações, sem
considerar diálogo, nem humanidade. A lembrança me provoca ânsia de vômito. O
corpo maciço, como que tênis estufado de papel, pesado e pronto pra ser vendido,
se colocando em cima da mesa, colocando a mesa à cima de si, sem sentido nem
questionamento ou, repito, relação.
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